{"id":2748,"date":"2015-02-10T16:13:35","date_gmt":"2015-02-10T18:13:35","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/?p=2748"},"modified":"2015-02-10T16:33:42","modified_gmt":"2015-02-10T18:33:42","slug":"a-barbarie-consumada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/2015\/02\/10\/a-barbarie-consumada\/","title":{"rendered":"A barb\u00e1rie consumada"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2751\" aria-describedby=\"caption-attachment-2751\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"2751\" data-permalink=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/2015\/02\/10\/a-barbarie-consumada\/helena1-13\/\" data-orig-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\" data-orig-size=\"640,419\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"Sergio Barzaghi\/Gazeta Press\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Sergio Barzaghi\/Gazeta Press&lt;\/p&gt;\n\" data-medium-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\" data-large-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\" class=\"size-full wp-image-2751\" alt=\"Sergio Barzaghi\/Gazeta Press\" src=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\" width=\"640\" height=\"419\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2751\" class=\"wp-caption-text\">Sergio Barzaghi\/Gazeta Press<\/figcaption><\/figure>\n<p>J\u00e1 contei aqui, mas como a fila anda e est\u00e1 sempre chegando gente nova na parada, conto de novo.<\/p>\n<p>Minha primeira ida ao Pacaembu, pelas m\u00e3os relutantes do meu saudoso pai, que n\u00e3o gostava de futebol porque o considerava uma f\u00e1brica de fanatismo, segundo ele, o pior de todos os sentimentos humanos, foi aos 8 anos de idade, em 1949. Era o jogo final do Campeonato Paulista, o jogo das faixas, como se dizia, pois o S\u00e3o Paulo sagrara-se campe\u00e3o, diante do Corinthians. Resultado: 3 a 3, com direito ao \u00faltimo gol da gloriosa carreira de Le\u00f4nidas da Silva.<\/p>\n<p>Era o fim da era de ouro da chamada M\u00e1quina de Costura do Tricolor, que nos anos 40 acumulara cinco t\u00edtulos paulistas, dois bicampeonatos. E o embri\u00e3o do Corinthians que sairia da fila de dez anos com as conquistas do bi 51\/52 e o Campeonato do Quarto Centen\u00e1rio, em 54, pois l\u00e1 estavam j\u00e1 Id\u00e1rio, Luisinho Pequeno Polegar e Nelsinho, al\u00e9m dos mais rodados Cl\u00e1udio Crist\u00f3v\u00e3o de Pinho e Baltazar, o Cabecinha de Ouro.<\/p>\n<p>Os torcedores de um e de outro se misturavam tanto nas numeradas, onde eu estava, quanto nas arquibancadas de madeira ou na geral de concreto, que formavam aquela ferradura cuja base era a concha ac\u00fastica, um primor de civilidade, j\u00e1 que destinada a apresenta\u00e7\u00f5es de orquestras sinf\u00f4nicas e coisas do tipo.<\/p>\n<p>Dir\u00e1 o amigo: ah, mas eram outros tempos, em que as pessoas conviviam de maneira cordial e tal e cousa e lousa e maripousa.<\/p>\n<p>Ledo engano: quando jogavam, por exemplo, Corinthians e Palmeiras, a rua do Gas\u00f4metro, no velho Br\u00e1s, onde, por sinal, Charles Miller fez rolar as primeiras bolas que trouxe da Inglaterra no final do s\u00e9culo anterior, virava pra\u00e7a de guerra entre os corintianos da rua Carneiro Le\u00e3o e os palmeiristas da Caetano Pinto. Eram paus e pedras pra todo lado.<\/p>\n<p>Mas, logo a pol\u00edcia chegava e os briguentos voltavam pra casa, curar suas feridas ou celebrar a vit\u00f3ria de seu time.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia, na verdade, est\u00e1 nas entranhas do bicho homem desde quando evoluiu da ameba primordial. E ela se manifesta ao longo da hist\u00f3ria da humanidade de v\u00e1rias formas. Basta um pretexto qualquer capaz de juntar multid\u00f5es nas ruas, porque o covarde vira feroz gladiador no mesmo instante em que se sente amparado por uma turba, sob qualquer bandeira que lhe justifique massacrar o outro lado.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que n\u00e3o havia, naquela \u00e9poca, as torcidas uniformizadas, organizadas e preparadas para matar como hoje em dia. As gangues de rua de ent\u00e3o se transformaram hoje em verdadeiras mil\u00edcias, bandos paramilitares que estabelecem estrat\u00e9gias de combate e tudo o mais.<\/p>\n<p>O futebol \u00e9 apenas um mote, um estopim, n\u00e3o a raz\u00e3o de ser dessa viol\u00eancia toda. Mesmo porque o futebol sempre foi, no fundo, uma dramatiza\u00e7\u00e3o da guerra, com todas aquelas terminologias b\u00e9licas que constituem seu vocabul\u00e1rio comum. Uma simula\u00e7\u00e3o, um espet\u00e1culo pac\u00edfico destinado a substituir a guerra de verdade.<\/p>\n<p>O sujeito vai ao est\u00e1dio, descabela-se, grita, xinga, aplaude, e de l\u00e1 sai mais leve, apesar da eventual derrota. Fez-se a catarse, o descarrego.<\/p>\n<p>Sucede que essas gangues organizadas nem est\u00e3o a\u00ed para as sutilezas do jogo. A maioria nem quer ver a bola rolar. Fica ali na arquibancada escolhendo suas v\u00edtimas e arquitetando planos para aniquil\u00e1-la. S\u00f3 isso, nada mais.<\/p>\n<p>Mesmo porque \u00e9 a \u00fanica forma que conhece para tentar deixar a sua marca pessoal nessa vidinha deserta e sem horizontes que lhe foi destinada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2751\" aria-describedby=\"caption-attachment-2751\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"2751\" data-permalink=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/2015\/02\/10\/a-barbarie-consumada\/helena1-13\/\" data-orig-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\" data-orig-size=\"640,419\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"Sergio Barzaghi\/Gazeta Press\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Sergio Barzaghi\/Gazeta Press&lt;\/p&gt;\n\" data-medium-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\" data-large-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\" class=\"size-full wp-image-2751\" alt=\"Sergio Barzaghi\/Gazeta Press\" src=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2015\/02\/helena11.jpg\" width=\"640\" height=\"419\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2751\" class=\"wp-caption-text\">Sergio Barzaghi\/Gazeta Press<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso ser nenhum antrop\u00f3logo com PHD ou psicoterapeuta de qualquer escola pra constatar isso. Basta espiar essa turba em a\u00e7\u00e3o. Em cada um, est\u00e1 impresso na testa o estigma de uma exist\u00eancia sem sa\u00edda. Semianalfabeto, subempregado ou sem emprego algum por absoluta falta de qualifica\u00e7\u00e3o, sobrevivendo numa sociedade de consumo exacerbado, com tantas ofertas maravilhosas nas vitrines da vida, todas fora de seu alcance, o tr\u00e1fico e o assalto nas ruas passam a ser os meios mais atraentes de subsist\u00eancia, desde a mais tenra inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Esse pessoal se multiplica a cada dia nas periferias e favelas das grandes cidades, diante de um poder p\u00fablico cada vez mais falido em imagina\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o para mudar esse cen\u00e1rio ca\u00f3tico. Some-se a ele uma elite inconsciente, preocupada apenas em amealhar seus bens de consumo, sem a m\u00ednima vis\u00e3o social, e eis o caldo de cultura perfeito para o crescimento absurdo da viol\u00eancia entre n\u00f3s. Acrescente a\u00ed leis lenientes, o despreparo cr\u00f4nico das autoridades policiais e a incompet\u00eancia dos cartolas, e o c\u00e9u no nosso horizonte fica preto.<\/p>\n<p>Do outro lado da trincheira, a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m carente de um ensino adequado h\u00e1 duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, reage com o \u00fanico argumento que lhe resta: deixem eles se trucidarem nas ruas, nos est\u00e1dios. Que se matem!<\/p>\n<p>\u00c9 a barb\u00e1rie consumada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 contei aqui, mas como a fila anda e est\u00e1 sempre chegando gente nova na parada, conto de novo. 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